Adolescência e violência

ações comunitárias na prevenção

Autores

  • David Léo Levisky Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo; IPA; Universidade de São Paulo.

Resumo

O autor descreve a importância da psicanálise na compreensão e prática de ações comunitárias na prevenção das violências que atingem as crianças e os adolescentes, e também daquelas por eles praticadas. Conhecer, articular, integrar e multiplicar — cabeças fazendo cabeças — são frutos de um esforço conjunto, presença viva da solidariedade existente, que busca espaço emocional para se manifestar. A comunidade se beneficia e cada um se realiza. Essas ações estão acima de tendências partidárias, econômicas, raciais e religiosas. Devem ser integradas através de políticas públicas de intervenção dos diferentes segmentos sociais e abarcam a multiplicidade de fatores que compõem a sociedade; são expressões de um sentimento amplo e democrático. Não se espera consenso, mas sim uma capacidade social de conter e mediar as diferenças, quando estas não forem passíveis de serem eliminadas. Como psicanalista inserido na clínica, venho, nos últimos 10 anos, aplicando os conhecimentos psicanalíticos na prática social, através de seminários, supervisões individuais e institucionais, cursos, articulação de grupos, grupos operativos e de leitura, etc. A psicanálise propicia a compreensão dos processos identificatórios, suas relações com as culturas e transformações históricas das mentalidades, ampliando os conhecimentos da estrutura, da dinâmica e da economia do aparelho psíquico humano. Manifestações do inconsciente sobre o consciente, organizações simbólicas, estruturação e participação da linguagem nas várias instâncias psíquicas, nas constituições éticas, nas teorias sobre os investimentos afetivos e vínculos emocionais, sobre o pensamento — tudo isso faz da psicanálise uma área do conhecimento humano essencial para a análise da complexidade do pós‑moderno. Não se trata de uma transposição para o social das interpretações psicanalíticas, nem de uma substituição da riqueza das relações transferenciais e contratransferenciais presentes na psicanálise clássica. É uma construção advinda da experiência da clínica psicanalítica, fruto de uma longa formação que permite compreender a subjetividade do homem policêntrico e promover interfaces com outras áreas do conhecimento. A psicanálise possui instrumentos teóricos e competência prática para compreender processos mentais inconscientes, elaborar diagnósticos intra, inter e transubjetivos; apreender o imaginário individual e coletivo (mitos, ritos, utopias, crenças); contribuir para a articulação, ressignificação e transformação dos elementos simbólicos e estressores de grupos que vivem as fragmentações da vida social e cultural contemporânea. Ela também contribui para a formação de profissionais de áreas diversas e alerta a mídia sobre suas possibilidades educacionais, muitas vezes utilizadas de forma irresponsável, associadas a poderes econômicos. A banalização da violência e do sexo, a presença contínua de imagens que distorcem o cotidiano, invadem a privacidade individual e familiar e criam contextos fomentadores de novas violências. O psicanalista tem a obrigação ética de alertar, analisar e debater os desdobramentos da evolução do mundo contemporâneo, seus valores globalizados e a constituição de uma nova ética. Vivemos na América Latina a maior desigualdade social do planeta. Isto significa um “genocídio físico e de almas”: fere a autoestima de muitos e estimula o narcisismo de outros. Estresses, doenças psicossomáticas e síndrome do pânico são formas de violência. Trabalho infantil, prostituição infanto‑juvenil, doenças sexualmente transmissíveis, drogas, álcool, tabaco, auto e heteroagressões, crescimento descontrolado das cidades, poluição e escolas despreparadas são as perversões da vida cotidiana contemporânea. Este universo complexo faz com que o psicanalista do terceiro milênio, além do divã, precise “colocar a mão na massa” e participar, através de ações comunitárias, da vida social. A psicanálise do terceiro milênio ainda tem muito a fazer.

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Biografia do Autor

David Léo Levisky, Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo; IPA; Universidade de São Paulo.

Psicanalista, membro efetivo e didata, com especialização na área da infância e adolescência pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Membro da IPA. Psiquiatra. Doutorando do Departamento de História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – Brasil. Autor de vários livros sobre adolescência.

Referências

FOUCAULT, M. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1998.

LALANDE, A. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da psicanálise. Paris: PUF, 1973.

LEVISKY, D. L. (org.). Adolescência e violência: ações comunitárias na prevenção. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.

ROSSI, C. “‘Dissenso de Washington’”. Folha de S. Paulo, São Paulo, 26 ago. 2001. p. A12.

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Publicado

2001-10-17

Como Citar

LEVISKY, David Léo. Adolescência e violência: ações comunitárias na prevenção. Boletim Formação em Psicanálise, São Paulo, v. 10, n. 1, p. 97–109, 2001. Disponível em: https://revistaboletim.emnuvens.com.br/revista/article/view/332. Acesso em: 23 abr. 2026.

Edição

Seção

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